Adeus Sampa

PaixãoPassei os últimos dias com uma música martelando meu peito. É da banda inglesa de rock progressivo Supertramp. Gravada em 1979 no álbum Breakfast in America. Às vezes ela até me tira o ar.

And I really have enjoyed my stay (Realmente aproveitei minha estada)
But I must be moving on (Mas eu tenho que ir embora)

É a vida me levando de novo. Não que eu professe a tese do Zeca Pagodinho do “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. Nada disso. Ela até me leva, mas tem que me dar cantadas indecentes, às vezes sacanas. Noutras vezes basta me oferecer o peito quente e macio acompanhado de um cafuné. Mas o fundamental é que ela me deixe sentir no controle da situação.

Like a ship without an anchor (Como um navio sem âncora)
Like a slave without a chain (Como um escravo sem correntes)

Apesar dela ter me dado colo e cafuné, a estrada é a minha busca de viver a vida, de me sentir vivo e ter juventude. Não foi fácil no início entender essa doce dama, mal compreendida pelos que vêm da estrada de onde vim. Mas é claro, como todo volúvel, me apaixonei. E a amei intensamente.

Like a king without a castle (Como um rei sem castelo)
Like a queen without a throne (Como uma rainha sem trono)

Como com todas as outras que me apaixonei, passeei por seus caminhos, senti seus cheiros, todos, e hoje reconheço cada canto pela textura, cor e cheiro. Vai ser duro abandoná-la.

Feel no sorrow, feel no shame (Não fique triste, não se envergonhe)
Come tomorrow, feel no pain (Volto amanhã, não sofra)

Sou mesmo volúvel. Não resisti à cantada indecente. Voltarei para a cama ardente da dama de beleza fácil e iniqualável. Para sempre? Sei lá. Ou sei. Aprendi com o Poetinha, será infinito enquanto durar ou enquanto meus olhos não se levantarem e olharem novamente para o futuro. Ou para dentro de mim, buscando mais um sonho.

Goodbye strange its been nice (Adeus estranho,foi muito bom)
Hope you find your paradise (Espero que você encontre seu paraíso)
Tried to see your point of view (tento entender seu ponto de vista)
Hope your dreams will all come true (Espero que todos seus sonhos realizem-se)

É esse o som que me martela e aperta o peito entrando pela janela, vindo da noite de Sampa. Aprendi muito com São Paulo, mas o Rio me quer e me deu uma cantada que não pude resistir. Foram mais de duas décadas de distância. Envelhecemos? Eu não! Amadureci. O Rio mudou. Será uma nova relação, uma nova experiência. E Sampa nunca mais deixará de ter um canto especial nesse coração que rateou aqui por duas vezes e ganhou três pecinhas de metal, como anéis de compromisso. Às vezes fugirei prá cá, promessa eterna.

I’m an early morning lover
And I must be moving on

Goodbye Stranger com Supertramp pode ser ouvida:
1) Ali no player verdinho da seção Ouvir & Ler, acima e a direita, ou
2) No Youtube clicando aqui
3) No Last.fm pelo link

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Lewis Hamilton fuoriserie

Posso exibir sua arte Chico Caruso?Era um verão como sempre no Rio de Janeiro. Final de tarde. O vento que dava vida à biruta do Aeroporto de Jacarepaguá aliviava a temperatura e deixava as tonalidades do céu mais perceptíveis. Tomávamos uma Coca-Cola (poderia ser uma cerveja) eu e Sergio Rinland, um argentino, o engenheiro responsável pelo novo carro da equipe March de Fórmula-1 que viria a se chamar RAM Racing. As equipes de Fórmula-1 vinham cedo para o Brasil e faziam a pré-temporada no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Isso era em 1983. Conversávamos sobre uma única paixão que faz com que um brasileiro e um argentino concordem entre si: corridas-automóveis-pilotos.

Nessa época, um fenômeno brasileiro encantava a Europa, mais precisamente a Inglaterra e sua Fórmula-3. Lembro que saía em determinados domingos do posto 9 da praia de Ipanema, no início da tarde, com o tempo cronometrado para uma parada no Bob’s do Leblon. Almoçava com a Cris um Big Bob que lá não existe mais (mas tem no Fifties de Sampa) sentado dentro do carro, ouvido petrificado no rádio, atento a narração de uma corrida de Fórmula-3 inglesa.

Na mesinha de madeira branca da lanchonete à beira da pista do Aeroporto de Jacarepaguá, em determinado momento da conversa vem a pergunta que me angustiava fazer: - Sergio, o que você acha do Ayrton Senna. Como se precisasse de mais adjetivos, completei: o brasileiro que vem liderando e ganhando belas corridas na Fórmula-3 inglesa. Sergio, cabeludo como todos argentinos devem ser e de rosto redondo, bastante vermelho do sol de verão do Rio, abriu um grande sorriso e com os olhos brilhando me disse: - Em breve será um dos maiores campeões da Fórmula-1. Talvez até maior que Fangio. Aquilo me emocionou. Ayrton era meu ídolo, apesar do meu xará Piquet ainda ser um dos top drivers da Fórmula-1. Fangio era mais importante que a bandeira Argentina tremulando nas Ilhas Malvinas. Pelo menos para um argentino apaixonado por Fórmula-1.

Por que me lembro dessa cena? Porque quem ama a Fórmula-1, diferentemente de quem ama futebol, não torce para um time, torce pela arte (há exceções). Isso nos proporciona a capacidade de ao ver uma largada e sua primeira curva, antever que um piloto é um fuoriserie (aqui, aqui e aqui).

Quis o destino que ele não fosse o campeão no ano de estréia. Mas uso somente um argumento para justificar minha certeza que Lewis Hamilton está no mesmo degrau de Fangio, Ayrton e Michael. Para um novato, terminar o campeonato na frente do bi-campeão Fernando Alonso, ambos com o mesmo carro, é surpreendente. Alonso é o único que, nesse momento, anda de igual para igual com o Hamilton. Por quanto tempo? Pouco, certamente. Um ano ou no máximo dois. É uma pena que sua Renault ainda esteja tão longe dos carros de ponta neste ano. Ao final desta temporada aposto que o Schmacher pensará seriamente em voltar para tentar aumentar seus números e deixar a tarefa do Hamiltão um pouco menos fácil. ;-)

Lamento que naquele 1983 não tínhamos Internet e email, não fiquei com nenhum contato do Sergio. Se tivesse ainda contato com ele, faria novamente a mesma pergunta, sabendo que mesmo mudando o personagem, a resposta seria idêntica.

Aproveitem os domingos para assistir a arte do Pelé da Fórmula-1. Schumacher era o Maradona. :-D

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